A Vida na Selva: Segundo Dia

Dizer que o segundo dia de atividades na selva foi apenas “mais do mesmo”  seria uma grande injustiça, mas a base foi praticamente idêntica. Ou seja: acordar cedo, andar na lama, assistir a aulas diversas, praticar.

Alvorada às 5h, higiene pessoal rápida realizada, café da manha tomado, começa a primeira instrução do dia: navegação. Eu e meu grupo completamos uma rota no meio da mata, munidos apenas com uma bússola e algumas indicaçoes do caminho a ser seguido. Nada complicado.

Passamos entao à instrução de alimentos de origem vegetal. A ideia era aprender quais plantas sao comestíveis, como obtê-las e como prepará-las para consumo. Na prática, passamos algumas horas provando todo tipo de fruta exótica que pode ser encontrada na Amazônia, desde os simples (e bons) maracujá e goiaba até as coisas mais absurdas e nojentas.

Dentre elas, de longe a pior foi o noni. A fruta tem cheiro de fezes e gosto de vômito. De verdade mesmo. A pior parte foi que, além de comer o negócio, eu tive que tomar uma cumbuca cheia de suco dele. Logo ao consumir o noni, o reflexo para vomitá-lo é quase instantâneo. Recomendo a todos que provem uma vez a fruta, garanto que será inesquecível!

Noni

Noni

Completando a instrução, tive o privilégio de experimentar o turu (ou tapuru), uma larva que reside nos buritis. Não tem gosto de nada, mas comer o bicho ainda vivo é meio estranho (ainda mais se a pessoa for distraída como eu e mastigar o turu inteiro, com cabeça e tudo).

Turu

Turu

Depois de comer mais frutas do que nunca antes em minha vida, começou a aula sobre alimentos de origem animal, que foi muito mais agradável que a anterior. Aprendi a matar galinhas, depená-las e limpá-las. Ainda comi um pouco de moela crua (surpreendemente bem saborosa) e experimentei paca e jacaré assados.

Para finalizar o dia, esperamos anoitecer para ter a instrução de orientação noturna. Essa foi uma das aulas mais curiosas, pois serviu basicamente para aprender o que não se deve fazer na selva. E o que não se deve fazer na selva? Andar à noite. É impossível enxergar qualquer coisa a mais de um palmo do seu nariz. Adicione a essa “pequena” complicação milhões de insetos, buracos, galhos e cipós e fica fácil entender porque tudo na selva deve ser feito com a luz do sol.

Saldo do dia: uma farda ainda mais suja, pés ainda mais destruídos, a promessa de nunca mais comer noni.

No próximo post, o fim dessa pequena saga.

Selva!

A Vida na Selva: Primeiro Dia

É estranho como certas coisas demoram a ser processadas pela mente humana. Já estava caminhando há meia hora na selva quando me dei conta de onde estava e do que realmente estava fazendo.  Depois de acordar no susto e rapidamente me juntar ao restante do grupo no batalhão, iniciei o “aquecimento” do Estágio de Adaptação à Vida na Selva – 4 horas de marcha na mata. Metade do trajeto foi muito tranquilo, já que nao possuía mochila para carregar; percorri o restante levando a mochila de uma colega que havia machucado o joelho.

Esse aquecimento foi proveitoso para apresentar duas coisas muito características da Amazônia: a lama e os mosquitos. No início a pessoa até tenta procurar trajetos mais secos enquanto desvencilha-se desses insetos, mas logo percebe que é inevitável. Picadas acumular-se-ão pelo corpo e coturnos ficarao mais marrons que pretos. Resta aceitar o sofrimento e tentar ignorá-lo ao máximo!

Bicho infernal!

Bicho infernal!

Com o fim da marcha, inciou-se a primeira instrução, sobre materiais úteis. Aprendi sobre cipós que viram cordas, folhas que viram telhados e troncos de árvore que, bem trabalhados, transformam-se me mini-casas. Além disso, treinei a pecunha, uma técnica de escalada de árvores com a utilizacao de cipós presos aos pés. Difícil! Incrível como os nativos tem facilidade para essa atividade.

Terminada a aula, pausa para o almoço. 10 minutos contadinhos para engolir todo o arroz, feijão, farofa e peixe possível (com o indefectível suco de caju, claro) e ainda preparar o equipamento. Tive que o emprestar do Batalhão, no improviso mesmo, o que logo mostraria ser uma desvantagem em relação ao restante do grupo (que teve uma semana para comprá-lo, emprestá-lo e/ou consertá-lo). Para completar, recebi meu pau de fogo – uma arma que eu deveria carregar sempre comigo.

A segunda instrução abordou a sobrevivência em geral (fique perto de fontes de água, obtenha alimentos, defina seu local de descanso) e a montagem da rede de selva. A rede é semelhante a uma rede comum, porém com a adição de uma tela mosquiteira e um pequeno telhado. Surgiu aí o problema: como montar uma rede sem cordas para amarrá-la? O equipamento recém-emprestado era extemamente deficiente, logo eu, Ariel e Eduardo penamos para cumprir a tarefa.

Rede de Selva

Rede de Selva

Jantar idêntico ao almoço, fui para a instrução de Ofidismo. Aprender novamente sobre cobras e seus venenos foi um pouco entediante, mas logo em seguida veio a parte prática. E que prática! “Capturei” uma sucuri com as mãos nuas, sem qualquer instrumento para me auxiliar (sem contar o pé do instrutor, que tentava distrair o bicho). Situação bizarra, mas muito enriquecedora.

A famigerada sucuri

A famigerada sucuri

Depois, passamos  à prática de tiro de caça. Atirei com uma 16, que surpreendentemente (para mim, pelo menos) não tem recuo algum. O barulho da arma, porém, é muito alto mesmo. Tiro efetuado, paca abatida – de mentirinha, claro – fui descansar na cambaleante rede de selva. Tempo de sono: meia noite às 5h.

Saldo do dia: uma farda enlameada e molhada de suor, dois pés destruídos pelo coturno, muita coisa aprendida. E isso foi só o começo.

Selva!

A Vida na Selva: Impressões

Segunda-feira, 05h10 da manhã, alojamento na vila militar. Depois de receber no dia anterior a informação de que não mais iríamos para o treinamento na selva, eu, Ariel e Eduardo (meus companheiros guerreiros de selva) somos acordados de forma brusca. Nova informação: vamos sim para o treinamento na selva, e devemos estar prontos e com todo nosso material preparado em vinte minutos. O Exército é excelente em mudar as coisas em cima da hora.

Selva

Quinta-feira, 16h30, pátio do 8° Batalhão de Infantaria de Selva, Tabatinga. Depois de 3 dias isolados na mata – dois deles recebendo instruções diversas (sobre montagem de armadilhas, prática de tiro com espingarda etc), o terceiro vivendo uma experiência de sobrevivência na selva -, retornamos à civilização. Cerimônia de formatura realizada, diplomas entregues, direcionamo-nos de volta ao alojamento, corpos esgotados, mil pensamentos vagando pela cabeça.

Sim, é praticamente impossível descrever tudo o que vivemos nesses 3 dias, quando a cada momento relembramos um acontecimento diferente, um momento único, um fato quase esquecido. O que posso dizer agora sobre o Estágio de Adaptação à Vida na Selva:

- A selva amazônica, especialmente à noite, é um inferno;
- Sobreviver sem os recursos modernos que temos nas cidades é um inferno;
- 86 picadas de mosquito na mão direita, 92 na mão esquerda e 32 no rosto e pescoço (sem contar o resto do corpo, já que o bicho ocasionalmente consegue picar através da farda) comprovam que esse inseto é um inferno;
- Noni é um inferno;
- Dormir em um tapiri com a farda molhada é um inferno;
- Esse inferno todo foi uma das melhores experiências da minha vida.

Dedicarei meus próximos posts a descrever o que realmente fizemos nesses três dias. Enquanto isso vou organizar as memórias na minha mente…

Selva!

Enfim, Tabatinga

Sábado foi mais um dia de viagem. A parada do avião para reabastecimento em Tefé parecia ser um prenúncio: será que retornaríamos novamente a Manaus? Logo descobrimos que isso não seria verdade, e por volta das 16h30 desembarcamos no Aeroporto Internacional de Tabatinga.

Internacional? Sim, por menor que seja o aeroporto, estamos na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia, o que torna quase tudo na região uma salada multicultural. Agora mesmo estou escrevendo este post em uma lan house em Letícia, nossa cidade-irmã colombiana, ao som de uma bela chuva lá fora (como é comum) e de muitas pessoas falando em espanhol.

Esse ambiente diferenciado demonstra ser uma boa oportunidade para novas experiências (e não, não é o que aqueles de mente mais suja estão pensando). A cada parada em pontos comerciais, seja do lado de cá ou de lá da fronteira, lidamos com reais e pesos colombianos, português e espanhol. Apesar de algumas complicações, no fim todos se entendem – ou pelos menos fingem que se entendem.

 

Avenida da Amizade

Avenida da Amizade, a principal via de Tabatinga

De tudo isso, várias impressões surgem. As cidades são pequenas, sujas, com uma imensa frota de motos. Mototáxis  são nosso meio de transporte mais acessível, a um custo médio de 2 reais a corrida. Mais acessível ainda, em termos proporcionais, são as refeições em Letícia. Um prato de mignon ao molho de vinho, bem servido, estilo Outback, sai por 15 reais. No hotel Decameron, muito luxuoso (de verdade mesmo), o salmão gratinado com camarão e purê de batata fica por 22 reais.

Sobre o povo, pode-se dizer que é relativamente heterogêneo, com várias etnias diferentes. De destaque, a grande presença de haitianos e militares de todas as regiões do Brasil. Por sinal, os outros integrantes do MFDV (médicos, farmacêuticos, dentistas e veterinários das Forças Armadas) são grandes colegas, ajudando bastante nossa integração à região.

Talvez até por eu ter baixas expectativas, a sensação inicial sobre Tabatinga é muito boa. Isso tudo , entretanto, é apenas o adicional. Amanhã começamos aquilo que é nosso real propósito de estar na Amazônia – treinamento de campo na selva com início às 5h30 da manhã.

Selva!

Gastronomia Manauara

Duas coisas saltam à mente sempre que se fala sobre uma viagem a uma região desconhecida: pontos turísticos e comida local. Embora tirar fotos junto a lugares famosos seja uma atividade imprescindível a qualquer viajante que se preze, é através do paladar que se pode realmente conhecer uma nova cultura.

Pode até parecer exagero da minha parte – e, honestamente, é -, mas o ato de experimentar a culinária regional é fascinante por envolver toda uma operação logística por parte do turista. Há a coleta de informações com residentes locais, o reconhecimento de produtos diferentes, a negociação com vendedores inescrupulosos (prontos para sugar o máximo de dinheiro dos desavisados) e, por fim, a degustação. Nesse estágio, pouco importa se o alimento é de fato bom ou não. Arrisco até a dizer que descobrir um sabor desagradável constitui uma melhor experiência, uma melhor história para depois contar ao amigos.

E que histórias tenho para contar sobre a gastronomia manauara? Posso dizer que os grandes destaques da região são, previsivelmente, os peixes e as frutas. Daqueles, o melhor foi, sem dúvida, o pirarucu – além de saboroso, o bicho é bonito. Tucunaré, tambaqui e surubim também são boas pedidas.

Pirarucu

Pirarucu

Sobre as frutas, a mais popular é o cupuaçu. Tanto em sua forma natural quanto em seus derivados (de sucos a bombons), ele marca presença em quase todo estabelecimento alimentício. O gosto levemente azedo é bom, mas depois de certo tempo começa a enjoar. Nada que trocar de fruta não resolva; taperebá e tucumã são ótimas alternativas.

Cupuaçu

Cupuaçu

No fim,  sobraram boas experiências e faltaram ruins. Bom para meu lado gourmet, ruim para meu lado blogueiro.

Selva!

p.s.: ah sim, tem uma coisa da qual não gostei mesmo – pupunha. Tem gosto de beterraba seca.

Manaus-Manaus

Esse foi o itinerário do meu voo hoje pela Trip (com uma pequena escala em Tefé). Devido a condições adversas no aeroporto de Tabatinga – leia-se pista molhada, esburacada e pronta para um acidente na aterrissagem -, o que deveria ser minha apresentação no 8º Batalhão de Infantaria de Selva tornou-se uma estadia num hotel perdido no centro de Manaus.

ATR 72

O turboélice ATR 72 da Trip

 

O voo em si foi “peculiar”, por falta de melhor termo. A bordo de um barulhento turboélice cujo ambiente sonoro evocava as transmissões do Globocop, eu e os demais passageiros tivemos um passeio de luxo (R$ 900,00!) de 5 horas sobre a selva amazônica. Tudo bem que a paisagem é consistida basicamente por árvores, rios, mais árvores ainda e nuvens, mas a beleza e a grandeza do que lá do alto se vê aqui na superfície é embasbacante. Os kilômetros de rastros deixados pelos igarapés parecem estradas no meio da mata, um verdadeiro tapete verde-bandeira.

Ainda mais empolgante do que tudo isso é imaginar que, em menos de três dias, estarei eu no meio desse cenário, na primeira de muitas operações de campo.

Isso se o aeroporto de Tabatinga e São Pedro colaborarem, claro.

Selva!

120 horas de Amazônia

Turistas.

Essa é a sensação do que somos após quase uma semana em Manaus. Não que eu esteja reclamando (longe disso), mas a demora para o começo efetivo de nossa vida militar acaba criando essa “ilusão.”

Enquanto esperamos pela resolução de diversos entraves burocráticos – incluindo (mas não se limitando a) regularização de documentos, CRM, fotos, passagens -, vivemos apenas uma fração do cotidiano da caserna. Horários são mais rígidos e limitantes, a vestimenta do dia-a-dia precisa ser sóbria e o comportamento, idem. Obviamente que tudo isso acontece apenas dentro dos quartéis, e mesmo assim não se trata de uma imposição draconiana. Ainda somos claramente civis em um ambiente militar, o que, na realidade, até ajuda nossa adaptação a essa futura vida.

O que fazer com nosso tempo até que tal vida chegue a nós? Passear, claro, e por isso a primeira palavra desse post. Aproveitamos para conhecer o Teatro Amazonas, os barzinhos do Largo, uma versão manauara da Wood’s (que mais parece um churras de faculdade) e o famoso Hotel Tropical. Por fim, fizemos um passeio de barco para presenciar o encontro das águas dos rios Negro e Solimões (ou Negro e Amazonas, como nos orientou o guia turístico), almoçar comida típica da região em um restaurante flutuante, comprar artesanato indígena – ou apenas observar seus preços exorbitantes -, ver as vitórias-régias e mergulhar no rio com as piranhas.

O Encontro das Águas

O Encontro das Águas

A “ilusão”, pelo menos por enquanto, tem sido extremamente prazerosa. Resta torcer para que a realidade que a suceda seja tão boa quanto.

Selva!

36 horas de Amazônia

Difícil dizer alguma coisa sobre algum lugar com tão pouco tempo para conhecê-lo, mas as primeiras impressões são as que ficam, certo? Verdade ou não, eis o que percebi/vi/observei etc. em Manaus:

- Chove muito aqui! E não é tãão quente assim (sei que me arrependerei dessas palavras…) – pra falar a verdade, com tanto ar condicionado, tô passando mais frio do que no Paraná.

- As calçadas são ruins, e o trânsito é caótico… dá até saudades de Curitiba!

- Bombom de cupuaçu = muito bom (dica da Aninha).

- Com o cabelo raspado, pareço meu irmão.

- Carrefour é igual em todo lugar.

- Pode parecer que não, mas 2 horas de diferença no fuso horário são suficientes para incomodar – principalmente comunicações com a terra natal.

- Tem uns insetos bizarros por aqui.

Enquanto isso, é isso.

CIGS

Selva!