Eram os primeiros minutos após as 10 horas da manhã. Diferentemente do usual, o céu de Belém do Solimões, uma das maiores comunidades indígenas instaladas ao longo do Rio Amazonas, estava friamente acinzentado. Dentro do consultório climatizado da Unidade de Saúde, a consulta corria tranquilamente; por um momento, era possível esquecer que eu trabalhava no coração da Amazônia. A impressão era de que estava de volta à gelada Curitiba, em um dia qualquer, como tantos outros durante a faculdade.
A ilusão foi quebrada com a entrada repentina do Sargento de Saúde, trazendo consigo o abafado ar amazônico (e o que pareciam ser más notícias). “Tenente, Tenente!”, dizia, assustado, “Estão chamando o senhor numa casa aqui do lado!” “O que foi?”, respondi, temeroso quanto à resposta. “Parece que uma criança nasceu e não está respirando!”
De todas as coisas que esperava escutar, essa talvez fosse a pior. Emergências são ocasiões inevitáveis, restando ao médico apenas preparar-se da melhor maneira para toda e qualquer situação. De fato, alguns dias antes havia atendido uma vítima de acidente ofídico, dentro de uma canoa. Quando a situação envolve o nascimento de uma criança, no entanto, tudo torna-se mais delicado, pois um evento que deveria ser somente de alegrias e celebrações pode rapidamente se transformar num grande pesadelo.
Peguei os equipamentos disponíveis e, junto a um sargento e uma intérprete, dirigi-me apressadamente ao local indicado. Tratava-se de uma habitação modesta, de 2 cômodos, construída com madeira da região. Como todas as outras da comunidade, a casa em nada remetia à imagem consagrada da oca indígena – parecia, na realidade, uma tranquila casa de um bairro pobre de uma grande metrópole.
Ao adentrá-la, a realidade era completamente outra. Mais de dez índias de várias idades encontravam-se no recinto, cada uma agindo à sua maneira – uma gritava, outra emitia sons incompreensíveis; algumas tentavam socorrer o bebê, outras a mãe. Discussões corriam soltas a todo lado, e única adulta calma era justamente a parturiente. A garrafa vazia de Caninha 51 no chão explicava essa aparente calma, uma evidência irrefutável do método “embriagar para anestesiar.”
O ambiente de caos que engolfava o pequeno quarto-sala sequer notou minha chegada. Aproveitei, então, para me aproximar do recém-nascido, o qual estava deitado no chão. Uma índia mais velha, parteira, tentava reanimá-lo. Em vão: cianótico, apneico, atônico, bradicárdico, a criança parecia mais morta do que viva. Enquanto fazia a avalização inicial, a intérprete tentava me explicar as circunstâncias do caso. Segundo ela, a gestação havia ocorrido sem qualquer intercorrência. Ao nascer, porém, percebeu-se que o cordão umbilical encontrava-se enrolado ao redor do pescoço do bebê.
Tendo conhecimento do quadro, sabia que pouco poderia fazer, uma vez que não dispunha dos instrumentos necessários para uma intervenção adequada. Aspirar e intubar o recém-nato estavam fora de cogitação, portanto somente me restava executar uma massagem cardíaca. E torcer para o melhor.
Confesso que pouco me lembro dos instantes seguintes – se foram 2, 3, 4 minutos ou mais, não me recordo. A única lembrança nítida que ficou é a da índia parteira assoprando as fontanelas da criança, numa mistura de crendice local com ritual indígena.
Já desesperançoso, com as mãos cansadas de massagear o diminuto tórax, a surpresa: a frequência cardíaca aumentou. Seria o impossível, possível? Logo depois, o bebê começou a ensaiar movimentos respiratórios, para em seguida tossir. O que parecia ser um milagre aconteceu, e em pouco tempo o recém-nascido corou-se e chorou, ainda que timidamente. Mãe e filho então arriscaram uma desajeitada amamentação, e a tormenta dentro do simplório casebre deu lugar a uma benvinda calmaria.
Apesar disso, era fundamental como médico ressaltar imediatamente a importância de um deslocamento a uma cidade maior, com equipe e instalações adequadas ao acompanhamento da criança. Após um parto complicado como esse, a possibilidade de sequelas e complicações em curto e médio prazo era grande. Todavia, de nada adiantou avisar a família, que manteve-se irredutível quanto à posição de permanecer na comunidade e usar sua medicina indígena.
Quando me dei por conta, o relógio já marcava 11 horas. Havia chegado a hora de partir. Com um sentimento misto de realização e frustração, embarcamos no Uatapu, rumo à próxima comunidade.
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Fica a pergunta: eu realmente salvei uma vida? Sem falsa modéstia: não, longe disso. Primeiro porque o pouco que fiz talvez não tenha sido uma condição sine qua non para recuperação inicial do bebê. Não é absurdo pensar que as próprias índias parteiras fossem capazes de reanimar a criança com suas manobras peculiares. Segundo, não há garantias de que o recém-nascido tenha sobrevivido muito tempo após a partida de nossa equipe da comunidade. O seu estado era delicado e frágil, na melhor das hipóteses. Por último, a impossibilidade em convencer a família da necessidade e importância de uma evacuação para uma cidade maior privou o bebê de cuidados médicos posteriores, os quais seriam fundamentais para sua boa evolução clínica.
Como se vê, muitas vezes é difícil aplicar as condutas ideais. Essa impotência ao atuar na região do Rio Solimões ficou evidente em algumas outras situações. Cansei de atender crianças com infecções parasitárias – os famosos vermes -, para logo em seguida atender idosos com o mesmo quadro. É impossível não imaginar todo o fato como uma observação sinistra do presente e do futuro de uma mesma pessoa. A sensação é de que nada do que fazemos vai mudar a miséria da região, e as crianças de hoje serão hospedeiros de vermes até suas mortes na terceira idade.
Por mais que a ACISO seja importante na disponibilização de atenção de saúde básica à população ribeirinha, não se trata de uma solução para os problemas da região. Para tal, é imprescindível a implantação de políticas governamentais que promovam desde saneamento básico até melhores condições socioeconômicas (escolas, incentivos à economia local etc).
Infelizmente, o que mais vi nas comunidades indígenas foram cartazes de propaganda política nas paredes das casas. O que menos vi foram perspectivas de melhora de vida.
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