Conectividade

Num mundo globalizado, boa conectividade é tudo. Sim, confesso que começar o post com um batidíssimo clichê não é a melhor das escolhas, mas é incrivelmente apropriada. A região de Tabatinga/Letícia não possui conexões terrestres com o resto do mundo; via fluvial, as viagens são demasiadamente longas; por fim, os voos dependem muito das condições climáticas, as quais são frequentemente desfavoráveis. Como, então, manter uma ligação com o que acontece lá fora? Restam os meios eletrônicos.

O grande problema é justamente esse: as tecnologias aqui ora funcionam, ora não; se funcionam, falta qualidade no serviço. A velocidade da internet, por exemplo, é sofrível. Por vezes a navegação comum é impossível. Chega a ser pior que a época da internet discada, quando os sites eram, pelo menos, mais simples e leves. Baixar arquivos como filmes e músicas pode se transformar em uma tarefa hercúlea, testando a paciência do usuário – ou até mesmo sua longevidade. O preço por todo esse sofrimento? Por volta do mesmo valor pelo que se paga uma conexão de 10mbps em Curitiba.

Todavia, não posso dizer que se trata de uma surpresa. Mesmo antes de chegar em Tabatinga, já sabia que encontraria um ambiente cuja conexão com a internet seria problemática. Pensava, contudo, que o funcionamento da rede telefônica seria aceitável. Afinal, uma cidade de mais de 50 mil habitantes há de possuir operadoras com bons serviços, certo?

Ledo engano. Qualquer chuva (às vezes até o céu nublado) faz com que o sinal das antenas seja perdido. Quando ele não se perde, são diversas tentativas recebendo mensagens de “Rede Ocupada” até que a ligação seja estabelecida. O slogan da Tim, “Você, Sem Fronteiras”, chega a adquirir uma conotação cômica frente a tantos percalços.

Curiosamente, essa dificuldade de conexão acabou possibilitando o surgimento de um outro tipo de conexão: a de diferentes estabelecimentos comericiais. Existe em Tabatinga uma loja de materiais de construção que também é revendedora autorizada da Tim. Penso no cidadão que, enquanto compra cimento para a reforma da casa, decide comprar também um celular novo para a esposa. Outro caso notável é o do Restaurante de Frutos do Mar/Loja da Vivo.

Casa Martins Materiais de Construção/Revendedora Tim

Casa Martins Materiais de Construção/Revendedora Tim

Canto da Peixada/Revendedora Vivo

Canto da Peixada/Revendedora Vivo

Por sinal, se a qualidade das ligações fosse tão boa quanto a da comida, esse post seria bem diferente…

Selva!

Armas!

Exército é sinônimo de armas, pelo menos de acordo com a opinião popular. Embora seja uma simplificação exagerada, é verdade que o cotidiano da caserna em muito é preenchido por atividades com armamentos. Apesar de ser médico, a premissa não é diferente comigo, e frequentemente participo de práticas de tiro. É uma experiência gratificante, especialmente para alguém cujo contato com armas resumia-se a partidas de Counter-Strike e outros jogos similares.

A primeira coisa que se percebe em um estande tiro é o cuidado com a segurança. Os instrutores estão a todo momento alertando os praticantes sobre diversos procedimentos obrigatórios, os quais diminuem a chance de algum acidente acontecer. Às vezes chega até a ser incômoda essa repetição, mas ela é essencial para o bom andamento da atividade.

Ao atirar, a grande surpresa é a intensidade do barulho provocado pelos disparos. Cinema e videgames, por questões de conforto e segurança, não reproduzem fielmente essa característica. Ou seja, até o mais barulhento filme do Michael Bay (pense em Transformers) é fichinha perto da vida real. A intensidade é variável, mas não importa se são pistolas, fuzis, metralhadoras, é importante utilizar protetores auriculares. Uma surpresa menor está no chamado “coice” ou recuo, que é muito mais suave do que eu esperava.

Glock 17 9mm

Glock 17 9mm

 Atingir os alvos com precisão não é uma tarefa muito complicada, mesmo que isso dependa do armamento utilizado. Dentre todos que testei, os melhores foram a pistola Glock 17 9mm e o fuzil Colt M16 M4A1. Leves e precisos, são instrumentos utilizados pela Polícia Federal e pelos Fuzileiros Navais da Marinha, respectivamente. O mais divertido, contudo, foi atirar com a MAG, uma metralhadora que faz o atirador sentir-se praticamente um John Rambo – exceto a parte de matar centenas de pessoas, obviamente.

Colt M16 M4A1

Colt M16 M4A1

“Tiro: Esporte para Todos, Dever do Militar.”

Selva!

Dias de ACISO: “Salvando” uma Vida

Eram os primeiros minutos após as 10 horas da manhã. Diferentemente do usual, o céu de Belém do Solimões, uma das maiores comunidades indígenas instaladas ao longo do Rio Amazonas, estava friamente acinzentado. Dentro do consultório climatizado da Unidade de Saúde, a consulta corria tranquilamente; por um momento, era possível esquecer que eu trabalhava no coração da Amazônia. A impressão era de que estava de volta à gelada Curitiba, em um dia qualquer, como tantos outros durante a faculdade.

A ilusão foi quebrada com a entrada repentina do Sargento de Saúde, trazendo consigo o abafado ar amazônico (e o que pareciam ser más notícias). “Tenente, Tenente!”, dizia, assustado, “Estão chamando o senhor numa casa aqui do lado!” “O que foi?”, respondi, temeroso quanto à resposta. “Parece que uma criança nasceu e não está respirando!”

De todas as coisas que esperava escutar, essa talvez fosse a pior. Emergências são ocasiões inevitáveis, restando ao médico apenas preparar-se da melhor maneira para toda e qualquer situação. De fato, alguns dias antes havia atendido uma vítima de acidente ofídico, dentro de uma canoa. Quando a situação envolve o nascimento de uma criança, no entanto, tudo torna-se mais delicado, pois um evento que deveria ser somente de alegrias e celebrações pode rapidamente se transformar num grande pesadelo.

Peguei os equipamentos disponíveis e, junto a um sargento e uma intérprete, dirigi-me apressadamente ao local indicado. Tratava-se de uma habitação modesta, de 2 cômodos, construída com madeira da região. Como todas as outras da comunidade, a casa em nada remetia à imagem consagrada da oca indígena – parecia, na realidade, uma tranquila casa de um bairro pobre de uma grande metrópole.

Ao adentrá-la, a realidade era completamente outra. Mais de dez índias de várias idades encontravam-se no recinto, cada uma agindo à sua maneira – uma gritava, outra emitia sons incompreensíveis; algumas tentavam socorrer o bebê, outras a mãe. Discussões corriam soltas a todo lado, e única adulta calma era justamente a parturiente. A garrafa vazia de Caninha 51 no chão explicava essa aparente calma, uma evidência irrefutável do método “embriagar para anestesiar.”

O ambiente de caos que engolfava o pequeno quarto-sala sequer notou minha chegada. Aproveitei, então, para me aproximar do recém-nascido, o qual estava deitado no chão. Uma índia mais velha, parteira, tentava reanimá-lo. Em vão: cianótico, apneico, atônico, bradicárdico, a criança parecia mais morta do que viva. Enquanto fazia a avalização inicial, a intérprete tentava me explicar as circunstâncias do caso. Segundo ela, a gestação havia ocorrido sem qualquer intercorrência. Ao nascer, porém, percebeu-se que o cordão umbilical encontrava-se enrolado ao redor do pescoço do bebê.

Tendo conhecimento do quadro, sabia que pouco poderia fazer, uma vez que não dispunha dos instrumentos necessários para uma intervenção adequada. Aspirar e intubar o recém-nato estavam fora de cogitação, portanto somente me restava executar uma massagem cardíaca. E torcer para o melhor.

Confesso que pouco me lembro dos instantes seguintes – se foram 2, 3, 4 minutos ou mais, não me recordo. A única lembrança nítida que ficou é a da índia parteira assoprando as fontanelas da criança, numa mistura de crendice local com ritual indígena.

Já desesperançoso, com as mãos cansadas de massagear o diminuto tórax, a surpresa: a frequência cardíaca aumentou. Seria o impossível, possível? Logo depois, o bebê começou a ensaiar movimentos respiratórios, para em seguida tossir. O que parecia ser um milagre aconteceu, e em pouco tempo o recém-nascido corou-se e chorou, ainda que timidamente. Mãe e filho então arriscaram uma desajeitada amamentação, e a tormenta dentro do simplório casebre deu lugar a uma benvinda calmaria.

Apesar disso, era fundamental como médico ressaltar imediatamente a importância de um deslocamento a uma cidade maior, com equipe e instalações adequadas ao acompanhamento da criança. Após um parto complicado como esse, a possibilidade de sequelas e complicações em curto e médio prazo era grande. Todavia, de nada adiantou avisar a família, que manteve-se irredutível quanto à posição de permanecer na comunidade e usar sua medicina indígena.

Quando me dei por conta, o relógio já marcava 11 horas. Havia chegado a hora de partir. Com um sentimento misto de realização e frustração, embarcamos no Uatapu, rumo à próxima comunidade.

**********

Fica a pergunta: eu realmente salvei uma vida? Sem falsa modéstia: não, longe disso. Primeiro porque o pouco que fiz talvez não tenha sido uma condição sine qua non para recuperação inicial do bebê. Não é absurdo pensar que as próprias índias parteiras fossem capazes de reanimar a criança com suas manobras peculiares. Segundo, não há garantias de que o recém-nascido tenha sobrevivido muito tempo após a partida de nossa equipe da comunidade. O seu estado era delicado e frágil, na melhor das hipóteses. Por último, a impossibilidade em convencer a família da necessidade e importância de uma evacuação para uma cidade maior privou o bebê de cuidados médicos posteriores, os quais seriam fundamentais para sua boa evolução clínica.

Como se vê, muitas vezes é difícil aplicar as condutas ideais. Essa impotência ao atuar na região do Rio Solimões ficou evidente em algumas outras situações. Cansei de atender crianças com infecções parasitárias – os famosos vermes -, para logo em seguida atender idosos com o mesmo quadro. É impossível não imaginar todo o fato como uma observação sinistra do presente e do futuro de uma mesma pessoa. A sensação é de que nada do que fazemos vai mudar a miséria da região, e as crianças de hoje serão hospedeiros de vermes até suas mortes na terceira idade.

Por mais que a ACISO seja importante na disponibilização de atenção de saúde básica à população ribeirinha, não se trata de uma solução para os problemas da região. Para tal, é imprescindível a implantação de políticas governamentais que promovam desde saneamento básico até melhores condições socioeconômicas (escolas, incentivos à economia local etc).

Infelizmente, o que mais vi nas comunidades indígenas foram cartazes de propaganda política nas paredes das casas. O que menos vi foram perspectivas de melhora de vida.

Dias de ACISO: O Rio Solimões

Muito se fala do Rio Amazonas – neste trecho chamado de Solimões -, quase sempre com o uso de superlativos. Embora 13 dias sobre suas águas seja um período relativamente curto para realmente conhecê-lo, trata-se de um tempo suficiente para descobrir alguns desses superlativos:

1. O Rio Solimões é incrivelmente grande

Parece até redundante citar essa característica do Solimões, mas acho importante reiterar: ele é grande mesmo. Em alguns trechos ilhas consideráveis aparecem isoladas em meio a kilômetros de distância para cada margem. Em outros pontos, não há ilhas, porém a largura do rio é tamanha que fica a impressão de que se está em um lago. Até mesmo a população local acaba, vez por outra, perdendo a noção de montante e jusante, especialmente durante tempestades. O que nos leva a…

2. As chuvas podem ser muito assustadoras chuva

Em questão de segundos (sim, segundos), o que era um céu azul com algumas nuvens torna-se uma tempestade violenta, daquelas em que a visibilidade é de poucos metros. Ventos chacoalham grandes embarcações, a chuva inunda rapidamente as pequenas canoas dos nativos, os mosquitos (sempre eles!) buscam refúgio em qualquer área coberta – o que, nessa situação, transformou o Uatapu (e todo o cenário) em um inferno.

3. O pôr-do-sol é, muitas vezes, uma belíssima pintura – assim como o céu noturno

pordosol Quem vive na região acaba se acostumando, mas para uma pessoa como eu, que veio de uma metrópole, as visões dos céus que encobrem o Rio Solimões são surpreendentes. Céus de todas as cores, arcos-íris duplos, estrelas que parecem se multiplicar… fotos não fazem justiça à beleza que se vê com os próprios olhos.

4. A mata ciliar é  um grande exemplo de resiliência

mata Graças aos períodos de cheia e seca, o nível do Rio Solimões varia drasticamente de acordo com o período do ano. Isso acaba criando certas paisagens curiosas. Árvores de mais de 5 metros de altura praticamente submersas, como se fossem banhistas se afogando no mar, são elementos comuns nas margens dos rios. E, mesmo que seja improvável, elas sobrevivem a essa dura provação por alguns meses, para, quem sabe, ainda estarem em pé até a próxima cheia.

5. A água é muito marrom

agua

Câmera submersa no Rio Solimões

É muito marrom mesmo, devido a grande quantidade de detritos em sua composição. Não obstante, a população a utiliza para diversos fins, dentre eles o banho – pense em um banho em que você pode sair mais sujo do que quando entrou… às vezes a água do Solimões é capaz disso.

E tudo isso é apenas uma pequena fração do que esse grande Rio tem a mostrar…

Selva!

Dias de ACISO: As Comunidades Indígenas

Logo que chegávamos com o Uatapu em uma comunidade indígena, a primeira coisa a ser feita era conversar com o cacique e pedir sua “benção” ou autorização para realizar as atividades. Apesar de parecer um atitude um tanto primitiva (o que, de fato, é), é essencial que as lideranças locais apoiem a missão e transmitam essa confiança à população. Caso contrário, a ACISO ficaria às moscas, e eu seria um médico sem pacientes.

O que acentua essa sensação de primitividade é, paradoxalmente, o quão desenvolvidas são as comunidades indígenas. Aquele esteriótipo consagrado pela televisão e cinema, do índio seminu, pintado com urucum e de arco-e-flecha na mão, não é visto nas margens do Rio Solimões. Aqui a maioria das comunidades possui luz elétrica, casas bem construídas, ruas pavimentadas, escolas, postos de saúde, campos de futebol. Os indígenas caminham com roupas adequadas à moda atual, com maquiagem e perfumes não diferentes dos utilizados em grandes cidades. Frente a mundo visualmente tão familiar, causa certo estranhamento a existência de figuras como caciques e pajés.

Posto Indígena

Posto Indígena na Comunidade de Feijoal

 Uma clara barreira, no entanto, permance: a da comunicação. Nas comunidades, o português perde espaço para o idioma Ticuna, próprio da tribo de mesmo nome. A impressão é, bizarramente, de que estamos em um outro país, tão desenvolvido como o Brasil, e não em uma aldeia indígena. Obviamente que se trata somente de uma impressão; a verdade é muito mais complexa, e é difícil dizer se os índios da região ainda são “índios” ou se já podem ser considerados brasileiros “comuns.”

Essa indefinição serve para aumentar ainda mais os focos de animosidade entre civis e indígenas. Percebe-se que, quanto maior o isolamento e antiguidade do índio, maior é sua desconfiança em relação aos civis e militares. Muitas vezes os pacientes saíam das consultas sem agradecer a nenhum dos membros da equipe médica e odontológica, agindo como se nós não estivéssemos fazendo nada mais do que nossa obrigação ao atendê-los – compensando-os por anos de extermínio e exploração, por assim dizer.

Trata-se de uma questão complicada e longe de uma resolução – se é que ela um dia existirá. Enquanto isso, o Solimões e seus habitantes permanecem em um ambiente de problemas e incertezas, cabendo a nós, o Exército Brasileiro, promover ao menos um alívio por meio de nossa “Mão Amiga.”

Selva!

Dias de ACISO

O lema do Exército Brasileiro “Braço Forte, Mão Amiga” não existe por acaso. Além de garantir a segurança nacional, o EB realiza diversos serviços com o objetivo de auxiliar a população (especialmente sua parcela mais carente). A Ação Cívico-Social, ou ACISO, é talvez o maior exemplo dessa vertente militar.

Na Amazônia, a ACISO consiste basicamente em expedições a comunidades indígenas e pequenas cidades da região, promovendo atividades cívicas, recreacionais e, principalmente, consultas médicas e odontológicas. Como não poderia deixar de ser, o deslocamento durante a missão se faz por via fluvial – ou seja, novamente contamos com o Uatapu velho de guerra.

O Uatapu

O Uatapu

Durante 13 dias, entre o final de abril e o começo de maio, naveguei pelo Rio Solimões e parei em 14 comunidades, atendendo mais de 750 pacientes. Como era o único médico da missão, o trabalho foi longo e pesado – em uma tarde, cheguei a atender 82 pacientes, os quais lotaram uma igreja à espera pela consulta. Apesar de toda a fadiga após as intensas atividades, todo o desconforto de viver em uma embarcação por duas semanas, toda a inconveniência de estar isolado da “civilização”, a experiência de participar da ACISO é excepcional.

Foram tantas situações vivenciadas, tantos casos para contar, que um post só não seria suficiente para sequer tocar a superfície do que aconteceu. Postarei aos poucos, portanto, histórias e impressões dessa viagem. Por ora, posso dizer que é uma experiência pela qual todo brasileiro deveria passar, para conhecer de verdade esse Brasil “alternativo” que aqui existe. Espero que, após essa série de posts, fique evidente o porque.

Selva!

Luto

Semana passada, na quarta-feira, um acidente de helicóptero vitimou um colega guerreiro da amazônia. Oswaldo Nogueira da Silva Filho, de 31 anos, era, assim como eu, um médico voluntário servindo ao Exército Brasileiro. Durante uma operação de evacuação de um paciente, o helicóptero emitiu um sinal de emergência e desapareceu em uma área da reserva indígena Raposa Serra do Sol (a 140 quilômetros de Boa Vista). Depois de 26 horas de busca, a aeronave foi encontrada destruída em uma região de mata fechada. Mais detalhes aqui e aqui.

É difícl colocar em palavras o sentimento de pesar por essa perda. Embora tenha tido pouco tempo para conhecê-lo (compartilhamos o alojamento do CIGS, junto a todos os outros 24 médicos oriundos da 5ª Região Militar, por uma semana), lembro-me especificamente de um momento: quando fomos raspar cabelo para tirar as fotos do documento militar, conversamos sobre faculdade, formatura, emprego e vida militar, entre outros tópicos, enquanto experimentávamos bombons de cupuaçu. É pouco, mas fica a lembrança de uma pessoa tranquila e simpática, feliz de estar vivendo uma experiência diferente.

Minhas condolências a toda a família e amigos do Oswaldo.

A Bordo do Uatapu

Parte de meu trabalho como médico do Exército corresponde ao acompanhamento de missões e operações na selva. Como sempre existe o risco de acidentes, faz-se necessária a presença de uma equipe de apoio de saúde.

Na grande maioria das vezes, o deslocamento para tais missões se faz à bordo do Uatapu, uma antiga balsa que continua sendo imprescindível aos militares da Amazônia, com uma fama que persiste nos rios da região.

Uatapu

Uatapu

Nos últimos 5 dias tive o privilégio de viver no Uatapu (que em tupi quer dizer “buzina que atrai os peixes”), apoiando os novos estagiários do EAVS (Estágio de Adaptação à Vida na Selva) no exercício de Sobrevivência na selva. Realizado no igarapé do Capacete, trata-se da mesma atividade que realizei um mês atrás, descrita nesta série de posts. Desta vez, no entanto, minha posição mudou, e de estagiário passei a instrutor.

Dizer que o exercício de Sobrevivência é desgastante não é novidade, já que seu objetivo é justamente exigir o máximo de cada pessoa numa simulação de emergência. Bem diferente é a vida da equipe de apoio. Embora viver em um barco na Amazônia não seja a mais confortável das experiências (banheiros apertados, geradores barulhentos, calor, os insaciáveis mosquitos…), é muitíssimo melhor que a vida no EAVS. O contraste entre as duas situações é realmente marcante, e, ao observar os exaustos estagiários, é impossível não relembrar todo o trabalho e sofrimento que também vivi há um mês.

Por comparação, o Uatapu fica até com cara de hotel 5 estrelas. Sobra até tempo para apreciar o majestoso ambiente ao redor: o gigante Rio Solimões, que às vezes parece um lago; igarapés que parecem retirados do cinema (quem se lembra do filme Anaconda?); copas de árvores praticamente submersas, poucas folhas acima d’água, como se lutassem para não se afogar.

Realmente, a Amazônia observada e a Amazônia vivida são entidades completamente distintas.

Selva!

Chove chuva

A região amazônica é famosa por suas frequentes chuvas – isso todos sabem. A região amazônica também é famosa pelas suas “chuvas agendadas”, que, por ocorrem todos os dias praticamente no mesmo horário, permitem aos cidadãos marcar compromissos “antes” ou “depois” delas. Isso todos acham que sabe.

A verdade? Qualquer hora e toda hora é hora de chuva.

Seja de manhã, de tarde, de noite, de madrugada, com sol forte, céu nublado, estrelado, ventania, a chuva chega como bem entende, esperada ou inesperada, como se a dona da cidade fosse . E, da mesma forma que chega, vai embora – ou não. Sejam tempestades de dias inteiros ou pés d’água de 5 minutos, é difícil saber quando já se pode sair nas ruas sem o risco de ficar ensopado.

E, na realidade, o militar ficará ensopado de qualquer jeito, ou de chuva ou de suor. O uso de guarda-chuvas durante o serviço é proibido, sendo permitido apenas vestir um poncho verde-oliva (que mais parece um forno em forma de vestimenta). Para completar, o clima úmido dificulta a secagem das roupas.

Pode até ser que os tabatinguenses possuam seus métodos caseiros de detectar pancadas e prever o tempo, e realmente não duvido que o tenham. Mas, enquanto não adquirir tal conhecimento, continuarei à mercê do oscilante tempo amazônico. E continuarei carregando na mochila o odioso poncho verde-oliva.

Selva!

A Vida na Selva: Último Dia

Alvorada às 4h pra ajeitar as coisas, desmontar a rede de selva, ter instruções sobre armadilhas. O dia comecou de maneira familiar, quase corriqueira. Tudo mudaria em alguma horas: teria início o dia de Sobrevivência.

A Sobrevivência nada mais é do que uma atividade que simula um ambiente de emergência, como se tivéssemos sofrido um acidente de avião no meio da selva, por exemplo. Hora de colocar em prática tudo o que aprendemos nos últimos dois dias, agora sem supervisão, com recursos extemamente escassos (facões, cantis, kits de primeiros-socorros, cordas)

As 27 pessoas do estágio foram divididas em dois grupos (Alfa e Bravo). Para dificultar um pouco, o meu grupo, Bravo, era composto pelos mais gordinhos, pela mais baixinha, pela única pessoa que estava lesionada e pelos três de Curitiba, que pouco tinham de equipamentos para colaborar (no caso, eu, Ariel e Eduardo). O grupo Alfa, por outro lado, possuía os estagiários com os melhores resultados no Teste  de Aptidão Física, ou seja, os mais atléticos. Hora de superar as desvantagens!

Depois de alguns minutos caminhando  no meio da mata, chegamos a uma pequena clareira. Com apenas algumas orientações, algumas tarefas a serem feitas – construir um tapiri (abrigo para dormir), um rabo de jacu (abrigo para fogueira), 2 armadilhas para caça de animais, uma trave de esfola (para limpar os animais capturados) – e uma galinha (!) para ser consumida, fomos deixados à nossa própria sorte.

Rabo de jacu

Rabo de jacu

As meninas do grupo foram encarregadas de construir o rabo de jacu e de cuidar do abatimento/preparo da galinha. O trabalho dos homens começou com a obtenção de recursos: muitos troncos, folhas, galhos, lenha, água. Logo estávamos construindo o tapiri, a trave de esfola e as armadilhas.

As coisas pareciam bem encaminhadas, afinal tínhamos um prazo para terminar tudo: o pôr-do-sol. Como havia escrito no post anterior, a noite na selva impossibilita realizar quase todas as tarefas. Com muito esforço, muito suor e muita água ingerida, estávamos finalizando o tapiri quando chegou a chuva. E que chuva… antes ensopados de suor, agora estávamos encharcados até o osso.

O que poderia ser um fator prejudicial foi na realidade revigorante. Todos do grupo passaram a trabalhar com mais empenho, e, com tudo pronto, veio a recompensa – uma galinha assada um tanto insossa, mas, naquele momento, deliciosa. Anoiteceu, e ficamos conversando até o sono chegar.

Tapiri

Tapiri

E foi aqui que começou a pior parte da Sobrevivência. Dormir no tapiri é extremamente desconfortável, as costas não conseguem se ajeitar entre os troncos e galhos. Para piorar, a farda molhada e a queda na temperatura fizeram-me sentir o frio mais intenso que já senti em toda minha vida. Era quase impossível pegar no sono, e era somente ele que conseguia fazer-me esquecer todo o sofrimento. Nesses momentos o tempo parece passar mais devagar – 00h15, 00h23, 00h27… cada olhada no relógio aumentava a aflição, e a vontade de desistir de tudo era crescente.

Felizmente chegou o soldado anunciando o horário de ir embora – 05h00 – e deixar a selva (não sem antes desmontar tudo e marchar mais um pouquinho no meio da mata, pra não perder o costume). Ao retornar ao quartel, um farto café-da-manhã nos esperava, como se fosse um prêmio por todo o esforço dispendido. Realmente, comer um sanduíche de presunto e queijo e beber um copo de refrigerante bem gelado é um prêmio excelente depois do que passamos (gelo é uma coisa incrível!). Mas o verdadeiro prêmio foi descobrir do que realmente somos capazes numa situação extrema, e saber que, se necessário, faríamos tudo isso de novo.

Selva!

p.s.: depois do café-da-manhã, ainda tivemos uma aula de rapel (muito interessante) e uma pequena formatura, com diploma  inclusive – prova de que realmente fiz o EAVS!